A mente sobre o concreto

Os proponentes do design Védico e do Feng Shui acreditam que nossos lares podem determinar nossa saúde. O que a ciência tem a dizer a respeito disso?

Por Jeff Turrentine
Washington Post
quinta feira, 7 de julho de 2005; página H0l

A arquitetura pode levar-nos às lágrimas com sua beleza, nos surpreender com sua majestade, nos acolher com o seu aconchego ou nos alienar com a sua frieza. Mas poderia ela deixar-nos doentes ou curar nossas doenças? Poderia ela tomar-nos mais espertos ou mais bem sucedidos? A arquitetura poderia ampliar nossa energia ou, por outro lado, enfraquecer-nos?

O arquiteto Jonathan Lipman responde sim, firmemente, de modo resoluto, a todas as questões acima mencionadas. Seus colegas arquitetos, sem mencionar cientistas que insistem em uma prova demonstrável, não estão certos. Mas um pequeno grupo de arquitetos e neurocientistas juntaram-se recentemente para trazer algumas respostas a estas provocativas perguntas — e isto para Lipman e outros que acreditam nos poderes de cura da arquitetura, é um passo na direção correta.

 

Lipman, o arquiteto chefe da empresa Maharishi Global Construction, situada em Iowa (EUA), conduziu um discurso para algo em torno de 160 pessoas no National Building Museum, no mês passado, explicando que deveríamos tratar nossos lares como conduítes de energia cósmica.

Em um programa noturno, “Uma palestra sobre a arquitetura Védica: uma abordagem holística a sustentabilidade”, foi dedicada à idéia de que um sistema de princípios imutáveis, ao qual Lipman se refere como “Lei Natural”, guia toda a atividade humana incluindo o desenho e a construção de edificios — em direção a um alinhamento com uma inteligência universal. Quando os indivíduos vivem de acordo com a Lei Natural, assim diz a teoria, eles tomam-se saudáveis, felizes e vivem em paz. Mas quando eles a desafiam, precisam enfrentar todo o espectro do sofrimento humano: ansiedade, infortúnios, doença e violência.

O brahmasthan — O pacífico núcleo central — ele é visível, a partir da entrada da casa Védica de Jeffrey e Rona Abramson em Potomac.

 
Lipman, aos 52 anos, é um homem comedido e de mentalidade séria. Ele é um arquiteto treinado na Comell, além de ex-presidente da Frank Lloyd Wright Building Conservancy. Ele é também um antigo praticante da técnica da Meditação Transcendental, a técnica de relaxamento trazida ao ocidente na década de 60, por Maharishi Mahesh Yogi. Lipman, além disso, é um residente dacidade Védica de Maharishi, uma comunidade de seguidores do guru octogenário que germinou, de forma improvável, por entre os campos de milho no sudeste de Iowa.
 
Como um proponente do desenho Védico — arquitetura ministrada pelos ensinamentos de Maharishi Mahesh Yogi, baseada nos antigos Vedas Hindus, ou textos sagrados — a crença de Lipman pode transparecer aos não entendidos, como excêntrica, para dizer o mínimo. Consenso entre eles é o fato de que uma casa deveria ser orientada para o leste ou o norte, de forma a alinhar-se com a inteligência universal e assegurar bem estar aos seus ocupantes. Residências orientadas para quaisquer outras direções estariam praticamente trazendo forças não auspiciosas para descarregar o seu poder de devastação.

Uma casa local construída de total acordo com a arquitetura Védica pertence ao incorporador Jeffrey S. Abramson e sua esposa, Rona. O casal pratica a Meditação Transcendental, duas vezes por dia, em sua casa com cerca de 2000m2, em Potomac, e creditam aos aspectos Védicos sua vitalidade pessoal e profissional.

Ele relata ter sentido uma grande liberdade logo após a sua mudança, em 1987.

“Era como se eu tivesse vivido toda a minha vida com algemas e aqui elas tivessem sido retiradas — a Lei Natural chegando e trabalhando por mim” diz. “Eu passei a ser o sócio de uma agência que comandava todo o Universo. Comecei a sobresair-me. Comecei a florescer!”.

Abramson, que também falou na conferência do último mês, também está convencido dos benefícios da arquitetura Védica à humanidade e que seu projeto mais recente, a Tower II, um complexo de escritórios e hotel em Rockville, será construído de acordo com seus princípios.

Como o altamente popular feng shui, que busca informações no misticismo chinês antigo para a purificação de energias destrutivas, tanto no lar quanto nos ambientes de trabalho, a arquitetura Védica existe na interseção do espiritualismo, projetos e auto-melhoria. Ambos os sistemas dispõem de pessoas que os descrevem ou como um óleo velho de serpente em um frasco novo, ou como um culto tingido de pseudociência.

Mas aos devotos, as evidências que suportam tal opinião, são demasiadamente fortes para serem ignoradas. E os números dos convencidos, ou pelo menos dos curiosos, estão crescendo. Após séculos de crença como puro esoterismo, o feng shui possui agora a sua própria, prateleira, bem-localizada, na seção de “projetos interiores” na Bames & Noble, uma das mais famosas livrarias Norte Americanas. Há quatro anos atrás, uma palestra de Lipman no museu do edifício atraiu apenas algumas pessoas; esta última conferência, em 13 de junho. estava completamente lotada.

“A influência mais poderosa da Lei Natural na Terra é o sol”, diz Lipman. “Na teoria Védica, a influência do sol no momento em que esta nascendo, apresenta um conjunto específico de influências nutritivas. Um prédio atua como uma forma de intermediário entre os ocupantes, o sol, e a luz da manhã (em horário bem cedo) e estas qualidades benéficas estarão disponíveis apenas quando a construção estiver orientada nesta direção”.

Muitos arquitetos, e certamente as chamadas “pessoas matutinas”, não achariam tal ponderação controversa, nem se preocupariam com outros componentes da arquitetura Védica: sua ênfase no equilíbrio e simetria; seu pré-requisito que cada casa possua o seu “Vastu” , um pequeno pedaço de terra murado ou cercado em frente à entrada; seu programa de disposição dos quartos dentro da casa, de acordo com a influência solar etc...

Quando Lipman e seus colegas e partidários Védicos se encontram com os empíricos do oeste, existe, no entanto, uma discussão no sentido de admitir se as pessoas que vivem em casas que não estão orientadas para o leste ou norte, ou aqueles que não dormem com suas cabeças direcionadas para o leste, são mais suscetíveis a experimentar falta de energia, ansiedade, agressividade ou até mesmo doenças fisicas ou psicológicas.

Mas Lipman está preparado para o desafio. Ele cita estudos sobre cidades, publicados no Jornal de Neurociência, sugerindo que ratos são sensíveis ao fato de terem suas cabeças dispostas a diferentes direções e ele dá as boas vindas às pesquisas realizadas com seres humanos.

Esta parece ser uma questão especialmente talhada para a Academia de Neurociência para a arquitetura, uma coalizão de arquitetos e cientistas do cérebro que se uniram. De acordo com um membro - Esther Sternberg, “para elucidar e tratar a respeito de como os modernos princípios da neurociência podem nos informar sobre as questões de como os elementos do espaço físico afetam a criatividade, cognição e humor.”

 
Sternberg, diretora do Instituto Nacional da Saúde mental, diz que sua organização ainda não estudou como as palhetas de cores ou os interiores organizados do Feng Shui, ou a orientação estabelecida pelo Design Védico, podem afetar o bem estar das pessoas. Ela e seu colega, o arquiteto John Eberhard, não deixam que a formalidade acadêmica interfira com os dois movimentos. Mas não existem dúvidas, dizem eles, que a luz natural, o equilíbrio arquitetônico, ou a presença de confusão e desordem, podem afetar o humor das pessoas, e o humor, dizem eles, pode afetar a saúde de todos!
 
A desordem, por exemplo — princípio básico evitado pelos praticantes do Feng Shui — é “um indutor muito potente da resposta de estresse”, diz Sternberg. “A desordem é constituida essencialmente de vários e vários impulsos sensoriais em um único espaço, e quando um indivíduo precisa lidar com tantos impulsos sensoriais, fica ansioso.” Com relação à luz solar, ela diz que “quantidades ideais de luz e seus diferentes comprimentos de onda, apresentam diferentes efeitos no que diz respeito ao disparo de padrões de funcionamento cerebral, que se iniciam nos olhos e seguem por todo o córtex visual, e estes padrões. quando negativos (iluminação inadequada) podem disparar uma resposta de estresse”.

Algumas das pesquisas de Eberhard em relação às respostas humanas as proporções arquitetônicas, sugere que as pessoas podem ser bastante restritas na apreciação das escalas e equilíbrio, que a arquitetura Védica utiliza como alguns de seus pontos principais. Em um teste, por exemplo, participantes foram questionados em relação a qual deveria ser o formato ideal de um obelisco. O formato escolhido pela maioria absoluta tinha proporções que correspondem não apenas ao Monumento de Washington, mas também aos antigos obeliscos Egípcios, nos quais o monumento Americano baseou-se.

“Você poderia dizer, bem, isto ocorre porque as pessoas possuem uma compreensão interna a respeito de como o Obelisco de Washington se parece e tendem a escolher este formato inconscientemente”, diz Eberhard. “Eu acredito que seja muito mais profundo do que isto; pois o que quer que seja que estivesse presente no cérebro humano há 5.000 anos atrás, quando os Egípcios construíram seus obeliscos, encontra-se em nossos cérebros ainda hoje. O que sabemos hoje, através da neurociência e da genética, é que as partes básicas e fundamentais de nossos cérebros já estavam presentes há 50.000 anos atrás. Temos, portanto que, independentemente do que tenhamos hoje em relação aos nossos sensos e respostas às proporções ou a simetria e harmonia, estas noções já estavam presentes há muito tempo atrás.”

Nós ainda não testamos pessoas no EEG para observar o que ocorre, com relação as suas ondas cerebrais, quando posicionamos sua cama diretamente sob uma janela (em violação direta ao Feng Shui) ou quando entram em urna casa pelo inauspicioso lado sul ou pelo auspicioso leste, mas Jonathan Lipman, por sua vez, não tem medo de que as pesquisas continuem.

“A questão fundamental sempre será, simplesmente: Existe um fenômeno natural e real ocorrendo?” Ele diz. “E se houver, as pessoas estarão se apegando a modelos que possam ser testados. Eventualmente nós teremos uma boa teoria que responda a isso.”

Veja aqui a reportagem original (em inglês) publicada no site do Jornal Washington Post